terça-feira, 24 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Melhor Amigo

Ontem encontrei o Bereca. Tomava um café no Cosme Velho e ele saía de uma pelada na Casa do Minho. Bereca é um amigo de infância. Nos conhecemos desde os doze anos de idade, se lembro bem. Lá se vão vinte anos! Bereca tem um filho de onze que está com dificuldades em matemática. Também tive dificuldades em matemática. Bereca também se chama Alexandre e também se chama Dutra. Quando o conheci, chamava-o de Dutra. Alexandre Dutra, que também é Pereira. Alexandre Pereira Dutra. Bereca era meu melhor melhor amigo.

O que é o Melhor Amigo? É o que sempre prefere jogar no mesmo time? Talvez. É o que rouba bala das Lojas Americanas junto? É o que sabe o que outro gosta? É o que a sua mãe mais gosta? É o mais parecido com você mesmo? O que assume o vidro quebrado junto? Pode ser.

Bereca foi meu melhor amigo por quase oito anos. Antes foi o Paulo, antes foi o Bruno, o Daniel, o Fernando, meu primo de São Gonçalo, meu primeiro Snoopy de pelúcia...

Encontrar o melhor amigo anos depois sempre é interessante. Pode ser uma alegria total, pode ser incrivelmente triste. Só o passado une. Só a lembrança liga. Pois muitos seguem rumos distintos na vida, e o 'agora' torna-se uma esquina dentro de um futuro qualquer.

Admiro (em parte) aqueles que sustentam uma amizade com a mesma intensidade da infância, se é que isso existe. Uma amizade que passa por tudo e ainda se mantém. Mas eu e Bereca nunca brigamos, nenhuma ruptura violenta, trauma, nada.

A vida é mesmo um grande desencontro com pequenos encontros, e os Melhores Amigos são esses pequenos encontros. Gosto de pensar que os fios nunca partem, as parcas aqui não são cruéis, os fios apenas perdem força, mas nunca morrem.

Só o passado une. Só a lembrança liga. Pois muitos 
seguem rumos distintos na vida, e o 'agora' torna-se 
uma esquina dentro de um futuro qualquer.

Me incomodam muito as pequenas fotografias dos amigos de outrora nas redes sociais. Matam o brilho de um possível reencontro, tiram força da poética da imponderabilidade da vida. Prefiro sim o reencontro casual, par hasard, que traz de uma vez toda a carga afetiva, como um trovão. Prefiro o “sabe quem encontrei? Lembra do Paulinho? Por onde anda o Cabeça? E o Buiú? Lembra da Carol Tina Turner?”, mas isso, infelizmente, é analógico demais para os dias de hoje.

Bereca mora perto de mim. Sempre morou. Combinamos uma cerveja na São Salvador “com o resto da galera”. Não sei o que acontecerá. Acho que estamos velhos demais para subir no muro do 22 e fugir das vassouradas do porteiro, ou jogarmos bola na rua com gols de pedras, ou para jogar taco, bafo, tacar pedra na casa abandonada da rua Ipiranga, ou mesmo fumar maconha na varanda escondido da minha mãe, ou irmos para o baile funk do “Cerra Coral”. Bereca não gosta de poesia. Talvez surja algo, talvez não, mas, importa?

Resta a certeza que tivemos uma “infância feliz”, como se diz. Que fomos campeões com nosso lendário time 'Cobra' no campeonato da Amal, que nunca terminamos o RPG do X-Men na escada do prédio dele, que nossos pais pagaram a conta do elevador que quebramos no prédio ao lado da vila do Gordinho, e que eu, Bereca, Chicão, Maurício, Hudson, Léo, Fernando, Fabrício Djow, Willy, Boláin, Camila e toda a turma da rua e do prédio continuamos fazendo tudo isso junto, seja no canto mais florido do jardim escondido de nossas memórias, seja num universo paralelo e quântico onde nada se desfaz e tudo é infinito.

Pedro Lago

domingo, 24 de novembro de 2013

POESIA TECIDA SEMPRE EM PROCESSO



POESIA TECIDA SEMPRE EM PROCESSO é um filme homenagem amálgama folhas de relva que cresceu e continua crescendo. É um filme que nunca termina, assim como toda essa angústia que faz movimentar tudo que se tem feito nesse imenso espaço sem fim. Há lugar para todos. Todos os filmes desta série são o mesmo filme. A mesma narrativa, a explosão, falando das mesmas coisas, das mais variadas formas nessa vida onde se faz tudo, seja no Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Londres, Espírito Santo. Este filme é uma homenagem aos tecelões da geração tecida da poesia do sempre agora. Este filme tenta em vão apreender todos que caminham e pulam e gritam e choram e gozam e riem e babam no asfalto quente e enfumaçado da cidade onde a única saída possível é fazer tudo possível dentro do impossível.

A Geração Tecida é o não-enquadramento formalista. É saber-se múltiplo diante da realidade angustiante que se desdobra a cada instante. É tentar entrar no limite do limite da instantaneidade do instante e nunca parar. Não há fim. Só há meio e troca.
Fazer muitas coisas ao mesmo tempo nunca foi novidade. Blake, Maiakovski, Mishima, Mautner, Pasolini, Ericson e muitos que se viram no lugar onde tudo faz sentido.Todos aqueles que saltaram para além dos muros do imenso labirinto e viram a imensidão se descortinando.Tudo é linguagem. Há sempre novas formas de dizer as mesmas coisas, outras coisas, qualquer coisa. O presente é a interseção do diálogo com a tradição e a constante busca pelo novo. É olhar o futuro para dar sentido ao presente e viver o presente para dar sentido ao futuro. É inventar histórias, caminhos, mundos. Jogar-se à grande angústia de explodir as próprias vísceras em praça pública.
POESIA TECIDA SEMPRE EM PROCESSO é o desejo, a mania, o grito que alinhava os fios. É o que nunca será satisfatório, nunca dirá tudo, mas, realizar, seja lá o que for, é tão fundamental quanto respirar. É o próprio ar, comida, gozo, fezes, saliva, excremento, sangue, lágrima. É o eterno retorno.
Todos que participaram deste filme são tecelões desse grande movimento. Os nós não se desatam facilmente, e o tecelão segue, sempre seguirá. Palavras do Pires, do Ericson tecelão fundamental que fez e faz a ciranda girar até virar hélice.



(as imagens utilizadas no filme são do arquivo pessoal de Pedro Rocha e Pedro Lago)



sábado, 12 de outubro de 2013

Síndrome de Lussandro

Infelizmente era como era. Na hora do recreio nos separávamos em grupos distintos. Dávamos nomes uns aos outros e nos divertíamos com isso. Ilhas próximas, aldeias, de onde se ouviam as libações para os deuses, que, diferentes dos nossos, sempre eram estranhos. A perplexidade diante do comportamento dos vizinhos que não eram inimigos. Não havia batatas que levasse a uma batalha sangrenta ou qualquer conflito para justificar tanto ódio.

Lussandro era um típico romano. Lutador de jiu-jitsu, disciplinado, um corpo preparado para o front adquirido após anos de treinamento. Não se misturava, tinha ojeriza à maconha e era aluno mediano. Nesse ponto, tal a maioria dos romanos, a Grécia tinha sido mal absorvida, mais corpo do que pensamento. Restou apenas a vontade da potência do avanço, a honra, o juramento à bandeira que anunciava a entrada da cavalaria.

Não era efetivamente um vilão. Socialmente amável, até ria das silenciosas crônicas que fazíamos das garotas. Todas elas. Gostava de praia e era um rapaz bonito. Após anos de raso convívio, meia dúzia de palavras na fila da lanchonete, encontros nas competições de jiu-jitsu, esporte que nos unia mais do que os outros camaradas, poderia dizer que, de certa forma, éramos amigos.

Mas não tínhamos interesse em avançar. Nosso laço era o que era. Não havia outros assuntos que não o esporte ou as matérias das avaliações semestrais. Porém, o corpo que sente-se minimamente seguro, relaxa, e assim, as relações, mesmo que rasas, abrem espaço para um aprofundamento natural.

Lussandro, como de hábito, veio ter conosco no início de um desses intervalos, que, quando se tem dezessete anos, já munido de certa ironia madura, insistíamos em chamar passionalmente de recreio. Hora de esquecer das equações, das estruturas químicas, das apostilas, e falar dos simples prazeres da vida do jovem, da professora de História cocainômana, da estupefação diante das roupas dos grunges, que, mesmo no verão, usavam roupas pretas e quentes, e por fim, celebrar a fácil alegria de sentir-se incluído num universo excludente e cruel.


Lussandro cumprimentou os camaradas sorrindo, um a um, relaxado, aparentemente dando continuidade à sustentação de mais quarenta minutos de ócio e prazer. Quando chegou a minha vez, estendendo a mão vindo do alto para maior força de contato e celebração, toquei-lhe, sem saber, no centro do magma da fúria ao dizer “Como vai meu garoto!”. Uma tempestade se fez em seus cabelos, os olhos ganharam um vermelho sangue incandescente, olhou para baixo, resmungou babando palavras de cólera, arrancou sua mão da minha com visível nojo, virou as costas, e, completamente transtornado, foi embora e nunca mais falou comigo.


O quê teria acontecido a Lussandro quando ouviu a palavra 'garoto'? Por que este simples tratamento despertou sua hibris? No fundo, eu teria sido sempre um adversário, um bárbaro, um Heitor, um antagonista cretino? Ou pior, um traidor? Que sensibilidade era aquela? O quê teria vivido para que, ao ser chamado de 'garoto', o levasse a revoltar-se tanto que, por instantes pensei que uma guerra selvagem iniciaria cujo fim se resolveria com a morte? E por fim, qual a medida da ofensa?


O fato é que desde então nossos encontro foram sempre tensos. Éramos cães, dragões de komodo disputando uma fêmea. Mas não havia fêmea, jamais houve duelo. O que havia era a ofensa, o corpo machucado pela palavra falada, talvez, mal falada, maldita, o dente trincado diante do exército, a hignomínia pura.


Hoje, doze anos depois, o assunto ainda causa aborrecimento. Não que a vida tenha mudado depois disso. Diretamente, não. Mas os percalços, mesmo os pequenos, nem sempre são pontuais como uma queda ou uma tragédia, mas, ao olhá-los buscando algum tipo substância que ajude a viver o instante, percebe-se que a melhor coisa a ser feita é transformá-los em outra coisa, fora do corpo, no limbo que precede as relações, para que um dia, velho e distraído, a redenção venha por acaso, num encontro na rua, dentro do riso, e o esquecimento seja tão aprazível quanto o sinal do recreio.


Pedro Lago

segunda-feira, 1 de abril de 2013

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

L'Étranger


tradução de Ana Chagas

“Estamos vestidos de alfabeto e não sabemos o nosso nome”
Murilo Mendes

Un homme marche sans
que rien ne le detruise.
La bouche d’incendie, le froid, la feuille
en forme de coeur
erigent un complexe
schema de sinapses
qui le maintiennent dans
une cloture electrique.
Prisonnier. Ne juge pas.
Est observé par
les dames du café.
Il s’arrete face a un
papier dechiré. Il aperçoit
le vendeur de journaux hébété et
est devisagé avec
la meme stupefaction,
avec dégout, parfois, et à cause de
ça, ils le considerent etrange.

Ailleurs, il provoque la colère, l’etonnement.
Sans noms qui le definissent,
il veulent le lapider,
le déchiqueter avec des outils,
des cris qui le sortent de l’inertie,
de l’impassible reflexe
qui le maltraite, qui le coupe
comme du papier neuf.

Etranger pour les uns
Etrange pour beaucoup,
il est expulsé des ses propres
vetements, de l’ordre qui
etablit le mouvement
au dessus du plan des rues,
oú, jusqu’aujourd’hui beaucoup
se considérent en securité.


 Pedro Lago

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Éclat

tradução de Ana Chagas

ÉCLAT

Peut-être c’etait la mer, seulement.
Ce rien-a-dire entre rires,
ce vertige qui part
dans la brume qui se dissipe
aux pieds de la nuit
ou simplement rien.

Et apporter avec soi la saveur
du fruit de la passion, le café pur
et le dire des bêtises dans
les pas sans destinée

Je ne sais pas si c’etais ça
ou seulement toi souriant.

Pedro Lago

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Chanson des Draps


tradução de Ana Chagas


C’etaient les dessins eparpillés
sur ta peau et le gout de
cachaça sur nos langues.

C’était ton corps devêtu
se tournant,
et ta main sur mon visage
claquant.

C’etaient tes yeux noirs fermés
aimant,
c’etait ton ventre salé
allant et venant.

C’etait la suíte pour cello de Bach
jouant,
c’etait ton sommeil resistant
et moi implorant.

C’etait ton corps chaud
écrit sculpté
c’etait la nuit qui voyait tout
souriant et suçant.


Pedro Lago

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Anarchistes Couronnés

tradução de Ana Chagas



Et nous sommes partis.
Parcourir les environs
du cinéma Odeon.
Lá oú un vieux
demandait de l’eau dans un bistrot
et le bataillon se taisait
en secrets.
Lá oú la luxure se deversait
sur les tables de l’hotel
pour celibataires et Lapa començait
a boullir en utopies.
Nous sommes partis.
Dans la genese des petits univers
qui s’entrouvraient dans les details.
Pas a pas dans la nuit
qui nous offrait un goût amer
et c’etait bon et ça’grandissait.
Lá oú les imperfections
avec les odeurs des trottoirs
formaient un opéra d’epouvante
un drame de la disgrace
et de la beauté des viscères.
Nous continuâmes entre sons et rutilements
de par les lumières des quiosques
et les bars pleins.
Nous trebuchâmes sur les bords du trottoirs
riant des problémes
comme se libertant
des cachôts.
et nous nous ennivrâmes comme
deux barbares epuisés
fendant verres,
en dehors du poison,
a l’interieur du cri,
dans le couronnement
de notre anarchie.

Pedro Lago.